Hellena estava excitada. Havia um certo receio de estar fazendo uma grande burrada. Medo de ser uma dessas coisas que a gente faz porque quer muito fazer, mas depois se arrepende, porque fez sem pensar. Hellena não queria pensar. O fato é que estava deitada em sua cama esperando sair do banheiro a mulher que tanto sonhou possuir – e ser possuída.
Seu primeiro beijo, sua grande paixão, “a mulher mais lindinha do mundo”. Hellena sorriu lembrando do jeito como se referia a ela no início de tudo. Chorou por ela, sonhou com ela, delirou por ela. Desejou, desejou, desejou e ali estava ela.
Dali a poucos minutos Ana Maria sairia do banheiro e provavelmente iniciaria um daqueles joguinhos tolos que começavam com “não, não faça isso!…”. Mas dessa vez tudo seria diferente. Tudo seria definitivo.
—Dessa vez eu quero tudo! Quero e vou ter! – disse Hellena para si mesma, afastando qualquer outro pensamento.
Havia dentro de si algo querendo dizer: “não faz assim, Lelê, pensa bem… esse não é o momento… sua vida agora é outra…”
Mas ela não se deixava cair muito tempo nesse pensamento lúcido, afastava de si essa conversa correta. Já tinha sido correta tantas vezes e o que ganhou?
—Foda-se! Foda-se o mundo, sei lá o que eu ganhei… eu quero essa mulher. Quero hoje, quero agora, quero aqui.
Sorriu satisfeita por estar exatamente onde sempre quis: deitada à espera da mulher desejada.
Ajeitou-se para se concentrar melhor em seu objeto de sua luxúria. “Luxúria?… luxúria… Luxúria!”, sussurrava experimentando o som da palavra. Cruzou as mãos por trás da cabeça, esticou bem as pernas na cama e ficou balançando os pés também cruzados, um tanto impaciente. Sorria um sorriso canalha, passando a língua nos dentes.
Ouvindo a água cair do chuveiro, Hellena balançou levemente a cabeça, mas não conseguiu evitar a lembrança do início de tudo: Abril de 2004.
Três anos antes, Ana Maria perdeu-se no Universo. Escola, cursinho, “As melhores cabeças“, dizia a propaganda.
“Rubens Salgado!”. A moça disse o nome ao porteiro como se fosse uma senha. O rapaz apenas indicou que entrasse. E ela entrou com tudo, como se conhecesse o local. Na verdade, Ana estava nervosa. Ganharia hoje a oportunidade de fazer um trabalho que daria visibilidade à sua carreira. Ou perderia essa oportunidade. Estava com 26 anos e trabalhava para uma agência de publicidade. Ana era webdesigner, mas trabalhava como arte-finalista.
Um amigo indicou seu trabalho para “repaginar“ o site do Universo, que, como o dono, Rubens Salgado, era muito tradicional. Não agradava aos alunos, nem aos professores. Formado em administração, o filho do empresário, Rubinho, entretanto, havia convencido o pai de que era hora de mudar, “investir em novas ferramentas”. O amigo em comum entre ambos, Marco Antônio, havia indicado Ana Maria para o serviço. “Super gatinha!”, ele disse cheio de más intenções: Marco Antônio deliberadamente não simpatizava com a namorada de Rubinho e queria “jogar gasolina no fogo”. No momento, sua idéia de diversão era fazer o amigo se impressionar com a webdesigner.
Ana Maria não sabia, mas havia sido indicada ao serviço mais por seus dotes físicos do que por sua experiência com o Photoshop e o CorelDraw. Naquela manhã, a designer acordou duas horas mais cedo do que o habitual, tomou um banho, revisou seus melhores trabalhos no velho notebook e ficou ensaiando o que dizer na entrevista com o dono do Universo.
Vestiu-se sobriamente, sem qualquer afetação, e foi! Entrou com tudo no Colégio. Agora estava perdida nos corredores. Olhou no relógio e viu que havia tempo ainda. Estava quase 20 minutos adiantada. Caminhou lentamente tentando familiarizar-se com o ambiente.
Deparou-se com a cantina e foi até lá buscar informações. Uma senhora simpática lhe apontou a sala, que ficava em outro corredor. Antes de ir para a entrevista, um café com leite. “Talvez seja melhor um chocolate…”, pensou ainda nervosa, desejando uma barra de chokito.
– Hell… você é um inferno! – gritou uma ruivinha simpática.
– Shhhh! Fala baixo menina! Assim todo mundo vai saber que você me ama – Disse a morena, arrancando vaias, assovios dos alunos.
Alta, do tipo magnética, a mulher mais velha adiantando-se à frente do grupo de alunos e reforçou a algazarra da turma que acompanhava, aos berros, as duas pelo corredor.
– Se acha muito, profi – riu a ruivinha agarrando o braço da morena.
A professora aceitou o carinho sem olhar para os lados, fazendo uma cara igualmente arrogante e divertida. Um rapaz mais alto que a professora passou o braço pelo seu ombro livre e pediu:
– Hellzinha, você não vai fazer uma prova violenta, vai?
– E eu já te violentei alguma vez, bonitinho? – perguntou falsamente insinuante a morena, arrancando novas risadas da turma
– Crianças, vão tomando leitinho aí, porque tia Hellena ai ali pensar numa provinha deliciosa pra vocês… E não façam nada que eu fizesse! – Dessa vez, a professora arrancou um riso até de Ana Maria, que parecia ter esquecido momentaneamente o nervosismo.
A morena percebeu a reação – e o lindo rosto – de Ana e seguiu mantendo no rosto o riso que trazia da conversa com os meninos. Compartilhando o mesmo sorriso da designer, deu uma piscadela divertida e seguiu para a sala dos professores. Ana não pensou no assunto, mas achou charmoso o jeito largado da professora. A mulher era dona de uma voz segura e poderosa. Jeans, all-star, cabelo negro desalinhado até o ombro, baby-look branca e um sorriso deslumbrante. Parecia bem diferente das professoras que Ana costumava ter no ensino médio.
A designer foi para a entrevista um pouco mais leve. Ficou ainda menos tensa quando entrou na sala do diretor e encontrou o rapaz moreno, muito jovem, sentado na cadeira principal. Rubens Júnior estava no lugar do pai. Combinou com o dono do Universo que trataria ele mesmo da contratação da webdesigner. Rubinho, antes acostumado a obedecer às ordens do pai, estava agora começando a tomar a dianteira nos negócios.
Ele não chegou a ficar realmente impressionado com o trabalho que a moça trouxe no notebook. Não que fossem ruins, mas eram poucos. Bons, mas não empolgantes. Por outro lado, Ana tinha um jeito sério. Acreditou nela quando disse que estava disposta a dar o melhor de si nessa nova empreitada e que se os trabalhos apresentados não estavam excelentes é porque estava realmente iniciando. Rubinho gostou da sinceridade da moça.
Pesava também o fato de que, não sendo uma profissional muito conhecida, não extrapolaria o orçamento que havia combinado com o velho Salgado.
– Então, façamos assim, vamos investir nessa experiência e você me apresenta uma proposta para um up-grade no nosso site – selou o jovem diretor.
– Eu vou me esforçar para atender suas expectativas – respondeu Ana Maria, quebrando a seriedade inicial com um sorriso que era de puro alívio. Estava contratada.


